O QUADRO DA ESCRAVIDÃO

Publicado: 19/05/2013 em RAP DO NORTE E NOROESTE-FLUMINENSE/RJ

580111_268652649909551_434823248_n‘Eu sou da época em que se comemorava o 13 de maio’, ouvi de uma professora de Antropologia da PUC – Rio esta semana. Achei isso triste e interessante. Nunca tive isso no colégio. Hoje em dia, se comemora mais o Dia da Consciência em todo 20 de novembro do que a data em que a escravidão negra supostamente terminou. Afinal, essa liberdade é, e deve ser muito questionada até hoje. Mesmo assim, é raro ver quem fale sobre isso fora do mundo acadêmico. Brasileiro nunca soube lidar muito bem com traumas do passado. O racismo é um e o assunto é muito feio.
Sim, racismo é feio, mas parece que, por aqui, apontá-lo é mais feio ainda. Se você cisma de falar sobre isso, corre o risco de te pedirem para bater na boca e tudo. No Brasil, é um assunto tão incômodo que nem deve ser mencionado, finge-se que não existiu da forma que existiu ou pedem para “deixar para lá”. Essa última é a preferível.
Há uns quatro meses, eu estava com minha namorada em um restaurante de temática colonial em Botafogo e, mais uma vez, pude constatar isso. O lugar, muito bom, é um dos únicos pela Zona Sul que não chegou ainda a preços surrealmente absurdos, mas já havíamos sido alertados por uma amiga dela sobre a decoração tida como “duvidosa” do local.A VERDADEIRA HISTÓRIA DA ABOLIÇÃO
Mesmo tendo ido ao restaurante algumas vezes, nunca havíamos nos deparado com nada de mau gosto por lá (se todo estabelecimento de temática colonial fosse abordado assim, teriam que fechar inúmeros lugares). Porém, nessa última vez, notamos que um quadro ilustrava explicitamente um leilão de escravos, com um homem branco de postura senhoril segurando um péssimo “menu” com o preço dos negros melancólicos e acorrentados aos seus pés.
O restaurante, devidamente informado via Serviço de Atendimento ao Consumidor sobre o péssimo gosto do quadro e o nosso incômodo por aquela atrocidade estar sendo usada como decoração, nem ao menos enviou um pedido de desculpas ou deu qualquer outra forma de retratação. Assim, o quadro permanece lá para quem quiser ver e naturalizar o holocausto negro que foi oficialmente extinto há 125 anos.
O racismo no Brasil é exatamente isso: um quadro na parede de nossa história que, apesar de tão feio, faz parte do cenário há tanto tempo que não querem sequer tocar nele. Assim, falar sobre ele e pedir pela sua retirada é muito problemático, já que todos se acostumaram com ele ali compondo o ambiente.
Afinal, quem ele incomoda?

Fonte: Jornal O Dia de 16/05/2013, colunista Gilberto Porcidonio, jornalista e mantém o site otitere.com.br

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